Caloiro
Quem se matricula pela primeira vez na Universidade de Coimbra, sem ter estado antes noutra escola superior.
Em Coimbra, a Academia são os estudantes. Têm um traje, casas que se governam sozinhas, duas festas por ano e, desde 1957, a praxe escrita num código: o primeiro tinha 279 artigos e dizia quem mandava em quem, a que horas e com que colher. Há mais de um século que há estudantes a defendê-la e estudantes a contestá-la.
Em 1957 o Conselho de Veteranos pôs a praxe por escrito. A primeira coisa que o Código faz é arrumar toda a gente numa escada.
Constitui Praxe Académica o conjunto de usos e costumes tradicionalmente existentes entre os estudantes da cidade de Coimbra e os que forem decretados pelo Conselho de Veteranos.
A hierarquia da Praxe, em escala ascendente
Os graus contam-se por matrículas. Carregue num degrau para ver quem lá estava.
Quem se matricula pela primeira vez na Universidade de Coimbra, sem ter estado antes noutra escola superior.
Também escrita, em ordem descendente: bicho, cão, polícia e caloiro.
Por ordem: Medicina, Direito, Ciências, Letras e Farmácia. Serve para desempatar veteranos com as mesmas matrículas.
Os futricas, e os alunos das escolas técnicas, não podiam usar capa e batina nem pasta. A trupe que apanhasse um tirava-lhe a pasta, a batina e a capa, e rapava-o.
As trupes, grupos de três ou mais estudantes com um ou dois chefes, só andavam entre o terceiro toque da tarde da Cabra e o primeiro da manhã seguinte. Nos dias sem toque da manhã não havia praxe, salvo no Carnaval, aos domingos e nalguns dias à volta das férias.
Unhas, ou colheradas, com a colher da Praxe e sempre em número ímpar; e rapanço, ao caloiro apanhado pela trupe, se “as crinas do animal” tivessem mais de dois dedos. Sem colher, um veterano podia mandar o infractor descalçar-se, e usava o sapato.
Quem levasse guitarra ou viola e mostrasse à trupe que sabia tocar ficava protegido. Quem estivesse muito embriagado também: a “protecção do Deus Baco”.
Sempre que a equipa de honra da Académica ganhasse, não havia praxe de trupe.
Não praxavam os rapazes nem eram praxadas por eles, e as caloiras não podiam usar pasta. Entre elas, tinham as suas praxes.
É o último artigo do Código: não é permitido bater palmas na Sala dos Capelos.
Houve códigos novos em 1993 e em 2001. O de agora foi aprovado pelo Conselho de Veteranos a 13 de Setembro de 2022 e tem metade dos artigos do anterior. A escada ficou linear: saíram o bacharel, o marquês e o bolonhês, voltaram os quartanistas, os quintanistas e os duplos quintanistas, entrou o semi-lente, para quem faz doutoramento, e chega-se a veterano com seis matrículas. E diz, por escrito, que se pode praxar pessoas de qualquer género.
Documentado[8]O que o Código de 1957 exigia para se estar “na Praxe”, a eles e a elas. Carregue numa peça.
Desenho a partir do texto do Código; as proporções são do desenho Esquema
Preta, com ou sem cortes na parte de baixo, com ou sem distintivos por dentro. Traçada ou sobre os ombros, os distintivos não se podem ver.
Para estar “na Praxe”, nada de distintivos na lapela, lenço à vista, luvas, pulseiras ou boina.
Até 1950 as raparigas não usavam capa e batina e quase não entravam nas praxes nem na Queima. Mudou quando começaram a ser mais na Universidade.
Documentado[2]No luto académico de 1969, a greve às aulas via-se no traje: a capa e a batina fechadas de alto a baixo.
Documentado[2]Com a praxe suspensa depois de 1969, a capa e batina só voltou em 1980, com a primeira Queima das Fitas pública desde a crise.
Documentado[2]No quarto ano, o grelo; no quinto, as fitas, na cor da faculdade. As medidas são as do Código.
Uma fita de 3,5 cm por 20, à volta da pasta, acabada em laço, com três nós no máximo. Se o laço se desfizesse puxado por uma ponta, eram unhas. No grelo podia escrever-se o dia em que se foi buscar, o dia da latada de imposição e um ponto de interrogação.
Oito fitas de 7,5 cm por 40, presas à volta da pasta. Faltando uma, eram unhas, a menos que estivessem recolhidas.
Só para doutores e doutoras. Dentro, pelo menos um livro, uma sebenta ou um caderno; na falta deles, um papel com cinco palavras escritas pelo dono.
Só depois das férias da Páscoa. Com a pasta aberta e virada para baixo, começa-se junto ao monograma e segue-se para a direita:
A praxe tem calendário: começa três dias antes das aulas e acaba com a Queima das Fitas.
A praxe começa três dias antes da abertura oficial da Universidade.
Cada ano ou curso faz a sua latada, no dia que combinar, e às dez da manhã põem-se o grelo e as fitas que se vão usar no ano.
Os quintanistas só podem mandar assinar as fitas depois das férias da Páscoa.
No dia do cortejo da Queima das Fitas os caloiros deixam de o ser: passam a pastranos até ao ano seguinte.
A praxe termina no último dia da Queima das Fitas.
Recebe os caloiros: serenata, cortejo da Latada, imposição de insígnias e concertos na Praça da Canção.
Documentado[7]Despede os finalistas. Abre com a Serenata Monumental, à meia-noite, no largo da Sé Velha.
Documentado[6]Os costumes dos estudantes foram proibidos pelo rei, amansados pela imprensa, escritos pelos veteranos e postos de luto em 1969. Sempre houve quem os defendesse e quem os recusasse.
Começa o foro académico: a Universidade tem tribunal, prisão e polícia próprios, e os estudantes, os seus criados e as suas famílias ficam quase fora do alcance da justiça do rei. Dura até 1834.
Documentado[2]A 7 de Janeiro, D. João V suspende as práticas rituais dos estudantes, por causa das investidas mortais aos novatos.
Documentado[2]É proibido o tributo que o caloiro pagava para entrar na Lusa Atenas.
Documentado[2]A palavra “Praxe” aparece nos textos, a juntar num só nome costumes que andavam dispersos.
Documentado[2]Até aqui, os caloiros levavam canelões e palmatoadas debaixo da Porta Férrea. As críticas, de dentro e de fora da Academia, acabaram com isso.
Documentado[2]José de Arruela, de Direito, que desde 1902 publica panfletos contra a praxe, cria um grupo para receber os novos alunos com música e festa, e propõe lançar-lhes flores em vez de canelões.
Documentado[2]A 31 de Outubro, um manifesto de estudantes progressistas chama à praxe anacrónica, brutal, hipócrita, cobarde e iníqua
.
A 1 de Março, o Conselho de Veteranos aprova o primeiro Código da Praxe. É publicado como projecto, mas vale desde logo.
Documentado[1]Flávio Vara, que contestara a praxe, é declarado futrica por um decreto do Conselho de Veteranos em latim macarrónico.
Documentado[2]No princípio da crise académica, a 22 de Abril, o Conselho de Veteranos decreta luto académico e cancela a Queima das Fitas.
Documentado[4]Depois do 25 de Abril, os costumes académicos são rejeitados em bloco, com o regime que os tinha adoptado. A praxe fica suspensa.
Documentado[2]Depois do regresso do fado em 1978 e de uma Semana Académica em 1979, uma Queima das Fitas pública traz de volta a capa e batina e as praxes.
Documentado[2]Novo Código, depois do de 1993. No mesmo ano, estudantes de Letras contra a praxe distribuem um Manual do Primeiranista.
Documentado[2]Novo Código, com metade dos artigos. Diz, por escrito, que se pode praxar pessoas de qualquer género.
Documentado[8]Usar capa e batina, ou ir à Queima, não diz de que lado se está: as secções da Académica vestem o traje quando actuam, e em 1969 foi de capa fechada que os estudantes fizeram greve.
Uma república é uma casa de estudantes que vivem em comum e decidem em conjunto. Carregue numa casa, ou escolha-a na lista.
Muitas ficam na Alta, à volta da Couraça dos Apóstolos, onde as casas se encostam umas às outras; as outras espalham-se pela Praça da República e por Celas. Escolha uma para ver a ficha.
Medido[11]Um diploma de D. Dinis, de 15 de Fevereiro, manda construir casas na zona de Almedina para arrendar a estudantes.
Documentado[3]D. João III manda construir doze moradas na nova Rua de São Sebastião: onze divisões em dois pisos, uma sala comum e quintal com cisterna, para oito a dez estudantes.
Documentado[3]O decreto de 28 de Maio extingue os colégios e deixa os estudantes sem casa. As comunidades de estudantes em casas arrendadas crescem, e é deste tempo o nome “república”.
Documentado[3]A Alta começa a ser demolida para a Cidade Universitária. Em Fevereiro suspende-se a ordem de despejo das casas de estudantes, e nasce o Conselho das Repúblicas.
Documentado[3]Uma lista única, saída das repúblicas, ganha as eleições da Associação Académica à comissão que o Governo lá tinha posto desde os anos 30.
Documentado[2]Muitos dos dirigentes da crise académica são repúblicos. Mário Soares faz uma conferência nos Kágados.
Documentado[2]Funda-se a Rosa Luxemburgo, república de raparigas, com o nome de uma revolucionária.
Documentado[2]Com a praxe suspensa, suspende-se também o Conselho das Repúblicas. Algumas casas trocam o nome “república” por “comuna”.
Documentado[2]Em 1982 e em 1986 o Estado toma medidas para proteger as repúblicas, reconhece-lhes valor patrimonial e paga obras de restauro nalgumas.
Documentado[2]Há vinte e sete repúblicas, duas delas femininas. As rendas vão de 25 a 50 euros por mês.
Documentado[2]A Câmara já reconheceu a dez repúblicas o estatuto de interesse histórico e cultural ou social local, contra a pressão imobiliária.
Documentado[9]A 11 de Dezembro, a Câmara aprova um regulamento para ajudar as repúblicas a comprar a casa onde vivem: até 10 % do preço, com o máximo de 50 000 euros.
Documentado[10]A Queima das Fitas despede-se dos que acabam o curso; a Latada recebe os que chegam. As duas nasceram no século XIX.
Começam a queimar-se as fitas de algodão que atavam as pastas das sebentas.
Documentado[4]Depois da Grande Guerra, os estudantes elegem uma Comissão de Quartanistas para organizar as festas.
Documentado[4]Primeiro programa oficial: os saraus do ano juntam-se à volta de 27 de Maio.
Documentado[4]Garraiada.
Documentado[4]Missa de Bênção das Pastas.
Documentado[4]Venda das Pastinhas.
Documentado[4]Baile de Gala das Faculdades.
Documentado[4]Imposição de Insígnias dos Quartanistas.
Documentado[4]Serenata Monumental.
Documentado[4]Luto académico: não há Queima.
Documentado[4]Uma Semana Académica com tudo o que a Queima tinha.
Documentado[4]Volta a chamar-se Queima das Fitas.
Documentado[4]No dia do último exame de cada faculdade, os caloiros saíam com tachos, latas, cornetas, gaitas e penicos a perturbar quem ainda estava em exames. Quem ia no cortejo subia de grau.
Documentado[5]Os lentes põem todos os exames a acabar no mesmo dia, para acabar com as latadas seguidas que começavam em Maio.
Documentado[5]A Latada volta, agora no princípio do ano e com a imposição de insígnias. O cortejo passa pelo Mercado D. Pedro V para comprar o nabo; os caloiros levam cartazes a troçar do regime, com a PIDE a ver.
Documentado[5]Interrompida pelo luto académico.
Documentado[5]Uma “Semana de Recepção ao Caloiro” acaba por dar na Festa das Latas e Imposição de Insígnias de hoje.
Documentado[5]Entrou no programa da Queima em 1949. A história dela, e a da canção que lá se canta, está na página do fado.
Documentado[4]A serenata, no fado de Coimbra →A Latada e a Queima têm datas todos os anos.A Queima abre com a Serenata Monumental; a Festa das Latas começa com a sua serenata.